É inconcebível que um fato isolado seja tomado como regra e condene uma comunidade inteira ao sabor de uma suspeita |
NÃO É sem razão que a USP, após 75 anos de existência, conquistou a posição de universidade de classe mundial, ocupando lugar de destaque entre as 130 melhores do mundo. Além disso, é a mais bem classificada entre as universidades brasileiras nos rankings mundiais, sendo responsável por cerca de 28% das publicações do país, e primeira na América Latina, com produção científica comparável à de alguns países dessa região.
Se tais fatos, por um lado, representam o
reconhecimento da competência da universidade em produzir ciência, de
outro implicam responsabilidade, assumida com seriedade, em mantê-la
como paradigma no ensino superior nacional.
À dedicação e à qualidade de docentes, funcionários técnico-administrativos e estudantes, comprometidos com a construção de um patrimônio intelectual de referência, se deve o reconhecimento a que a instituição faz jus nacional e internacionalmente.
É zelando pelos direitos de seus recursos humanos, com base na liberdade acadêmica e nos princípios éticos e morais, à luz de um regimento que pauta suas ações, que a universidade mantém seu prestígio.
A credibilidade da universidade, construída ao longo de 75 anos, não pode e não deve ser questionada por ilações com relação a seus procedimentos, que sempre se nortearam pela transparência, respeitados os preceitos jurídicos que regem suas relações internas e com a sociedade. É inconcebível que um fato isolado seja tomado como regra e condene uma comunidade inteira ao sabor de uma suspeita, ainda em julgamento. É preciso ressaltar que os processos relativos à apuração de denúncias na universidade passam por etapas, de caráter sigiloso, que se iniciam em uma comissão de sindicância e podem assumir caminhos diferentes, dependendo da complexidade e gravidade envolvidas. As vias possíveis são a comissão de ética e/ou a instauração de processo administrativo.
A sindicância não se encerra com a elaboração do relatório final por
parte da comissão formada para tal finalidade, uma vez que sua
conclusão depende de outros atos, tais como a análise jurídica formal.
A USP prevê em seu regimento sanções, que vão desde a advertência até a
demissão sumária.
No caso em questão, a comissão de
sindicância observou a necessidade
do encaminhamento do processo à
comissão de ética, na qual os autos se
encontram para apreciação.
Ressalte-se que os membros dessas comissões foram escolhidos com base em sua experiência acadêmica e impessoalidade e orientam sua atuação na ética e no cumprimento das normas regimentais.
O suposto caso de plágio está sendo apurado nos trâmites da lei. O rigor que permeia as ações na USP não pode, portanto, ser atropelado por ações impensadas em nome da simples presteza dos resultados ou sucumbir a pressões internas ou externas.
Cabe salientar que a USP, comprometida em fazer da ética um valor inerente às suas atividades, possui um Código de Ética, que contempla os princípios universais e as recomendações peculiares às instituições de ensino superior. Também, comissões de ética na pesquisa, existentes em suas faculdades e institutos, além de disciplinas relacionadas, na graduação e na pós-graduação, fazem parte do cotidiano das relações da universidade com sua comunidade.
Essas questões despertam interesse crescente da comunidade científica mundial, e a USP se alinha a essa
tendência.
A USP tem claro compromisso de prestar contas à sociedade e o faz,
regularmente, divulgando pesquisas, cursos, programas, ações culturais,
relatórios financeiros e procedimentos internos com transparência, como
o faz nessa oportunidade, respeitados os limites legais e éticos.
A universidade continua seu caminho como exemplo, sim, mas de qualidade
e de responsabilidade na condução das atividades administrativas, de
ensino, pesquisa e extensão universitária, que transcendem as
fronteiras do seu país.
SUELY VILELA, 54, é reitora da Universidade de São Paulo (USP) e professora titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP de Ribeirão Preto.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0709200809.htm